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O estresse, já vimos, é uma reação do organismo para colocar seu corpo preparado para agir, e para isso o metabolismo se altera.
O Estresse é uma interpretação de emergência. E numa situação de emergência o organismo vai precisar de muita energia. Em conseqüência, aumenta a vontade de comer guloseimas. A glicose oriunda de bolos, refrigerantes e sanduíches se junta ao açúcar extra já presente no sangue, e o pâncreas é forçado a liberar grandes quantidades de insulina para regularizar esse excesso. O resultado pode ser o aparecimento ou agravamento de um quadro de diabetes ou uma crise de hipoglicemia, que é a queda abrupta das taxas de açúcar, o que vem a provocar uma nova reação de emergência!
Como precaução, seu corpo também lança na corrente sangüínea uma substância que não fornece energia de forma imediata, mas que pode ser necessária se a "batalha” se prolongar – o colesterol. A desvantagem é que o colesterol, se não for "queimado”, tende a se depositar nas artérias, inclusive nas coronárias.
Como o sangue, além de transportar oxigênio, também precisa carregar essas substâncias com maior velocidade, o coração passa a bater mais forte e mais rápido, o que pode provocar hipertensão arterial e todos os seus malefícios.
Na medida em que é exigido mais oxigênio aumenta a freqüência respiratória, o que é péssimo se você for fumante ou morar num local com ar poluído. O aumento da frequência na respiração também altera a química do sangue, sendo que essa alteração também informa ao cérebro que a situação é perigosa, ampliando a reação.
A musculatura, por sua vez, se contrai para responder rapidamente à ameaça real ou imaginária. Com o tempo, essa contração generalizada provoca dores em diversas regiões do corpo, como nuca, ombros, costas e pernas.
Frente a um perigo, a digestão obviamente deixa de ser prioridade e todo o sangue é desviado para a musculatura, o que resultará em dificuldade digestiva se você resolver comer nesse estado de alerta. Um almoço tenso de negócios é um bom exemplo dessa situação. Como todo peso extra deve ser descartado para permitir maior agilidade frente ao perigo, pode ocorrer diarréia ou a necessidade imperiosa de urinar.
Seu corpo também passa a fabricar mais células sangüíneas para transportar o oxigênio extra, ao mesmo tempo em que aumentam os fatores de coagulação – como se seu organismo se preparasse para controlar a hemorragia de algum ferimento. O excesso de células sangüíneas, somado ao aumento da coagulação, pode resultar em pequenas "massas” no interior da corrente sanguínea, que podem provocar um derrame ou ataque cardíaco – e se a pessoa ingerir pouca água, o resultado será ainda pior devido a pouca diluição das células.
Também aumenta a concentração de endorfinas no organismo. As endorfinas são substâncias com estrutura química semelhante à da morfina e efeitos semelhantes – provocam euforia e são analgésicos muito potentes. Como a morfina, as endorfinas criam uma espécie de dependência química e paradoxalmente você poderá procurar situações de tensão para se sentir menos tenso! Existem cefaléias provocadas pela diminuição do nível de endorfinas circulantes, e por isso a pessoa pode sentir fortes dores de cabeça principalmente nos finais de semana, quando o organismo relaxa e as taxas de endorfinas diminuem.
No estresse, uma série de mudanças também ocorre no modo de pensar, sentir e agir. A primeira reação é no sentido de estimular a concentração, o raciocínio e as aptidões, mas depois de tantas reações infrutíferas o organismo começa a apresentar sinais de cansaço. Depois de algum tempo sob estresse, o raciocínio ora se acelera, ora fica lento, tendendo à confusão e à falta de lógica. A pessoa passa a adiar decisões e é difícil estabelecer prioridades.
Pode ocorrer diminuição de memória, com esquecimentos. Já as mudanças emocionais tendem para a agitação ou para a apatia. A agitação se manifesta numa constante irritação e eventual cinismo. A pessoa se preocupa demais e fica nervosa por razões sem importância. Perde o controle com facilidade, a paciência vai à zero. A ansiedade (expectativa de que aconteça algo ruim) é freqüente e afeta especialmente o sono.
A apatia, por sua vez, gera uma sensação de incapacidade, de inutilidade diante da vida. O indivíduo é dominado pela tristeza e pode chorar por qualquer motivo ou sem motivo algum. Costuma acontecer redução do apetite sexual, com fracassos de desempenho que geram mais ansiedade e depressão. A pessoa de sente exausta e desiludida, afastando-se do convívio com familiares, colegas e amigos, sem vontade de falar ou ouvir.
A oscilação entre a agitação e da apatia mantém nosso emocional num desgastante movimento de ioiô – ora com excesso de energia, ora apático e melancólico. Nos momentos de apatia os movimentos corporais se tornam aparentemente mais lentos, a coordenação motora fica comprometida e pequenos acidentes – como tropeçar na escada ou derrubar objetos – passam a ser freqüentes.
Na maior parte dos casos observados, identificamos um nível de atividade acelerado, incluindo fala abrupta e em tom elevado, além de movimentos corporais mais rápidos. A tendência é agir como "barata tonta", ocupando-se o dia inteiro sem concluir as tarefas. Também é freqüente a pessoa passar a exceder-se na comida, no tabaco e na ingestão de bebidas alcoólicas.
Complicações secundárias
Outra complicação do estresse aparece no momento em que você interpreta seus sintomas. Você pode, por exemplo, ficar preocupado com as conseqüências sociais, com o desempenho profissional, com sua capacidade de trabalho ou ainda com a possibilidade de outras pessoas perceberem que você está estressado.
Você também pode supervalorizar os sintomas, achando que eles conduzirão a um ataque cardíaco ou indicam que você tem algum câncer na cabeça. Exemplos não faltam. Chamamos esse mecanismo de "catastrofização". O alarme também faz surgirem emoções e sensações físicas necessárias para a reação, como raiva, ansiedade ou irritação. Mas, ao invés de serem úteis para dirigir corretamente nossas ações e escolhas, servem apenas para gerar uma nova situação de "ruim”.
Outra vez seu cérebro recebe os sinais, interpreta como além de "ruins”, serem "ruins e perigosas”, reagindo com os mesmos mecanismos primitivos, disparando novos alarmes.
Com isso, aumenta a fadiga pelo desgaste do corpo diante de tantas tentativas sem resultado, com comprometimento da energia necessária para a ação efetiva. A ansiedade também se amplia, já que o alarme o deixa preparado o tempo todo para perigos que o cérebro continua "enxergando”. E também facilita a tristeza, já que suas ações simplesmente não conseguem resolver a situação.
As tentativas frustrantes de não conseguir atuar na realidade pode se generalizar, gerando uma sensação inespecífica de que nada que fazemos resulta em mudanças significativas. Essa sensação de impotência e desamparo (tecnicamente, impotência adquirida ou desamparo aprendido) foi bastante estudada e está francamente relacionada com a origem da depressão, que aumentou 10 vezes nos últimos 100 anos, e que segundo a Organização Mundial da Saúde, deverá ser a primeira causa de incapacitação no planeta até 2020.
Nessa altura do campeonato, quando o círculo vicioso se fecha, a pessoa costuma adotar um comportamento defensivo – isola-se das demais, evita desafios e procura não se expor a situações estressantes. A estratégia faz sentido, mas é ineficaz. As obrigações cotidianas, sociais e profissionais, nos obrigam a sair da concha. Como o raciocínio, o equilíbrio emocional e a capacidade de reação estão comprometidos, há grande chance de ocorrerem sérias dificuldades nesses contatos. E essa nova situação chega ao cérebro, que a interpreta novamente como uma situação de perigo, desencadeando mais reações de luta e de fuga, mais isolamento, mais fracasso... E tudo começa outra vez.
Como vimos, esse sistema de alarme genérico dispara ao menor sinal de perigo, gerando uma reação de emergência. Nas pessoas do sexo masculino, esse alarme gera uma reação de emergência em que ocorre predominantemente uma inundação de adrenalina. Esse hormônio desencadeia dois tipos de comportamento: enfrentar o problema de modo agressivo (reação de luta), ou sair em disparada procurando algum lugar seguro (reação de fuga).
E com as mulheres? Por uma falha indesculpável, os pesquisadores pioneiros fizeram os estudos baseados na reação de homens, e inferiram que as mulheres teriam as mesmas reações. Como as mulheres variam o humor com a flutuação mensal de seus hormônios, e como essa flutuação dificultava a interpretação dos resultados, foram pelo caminho mais fácil e excluiram as mesmas das pesquisas!
Somente há poucos anos descobriu-se que, nas pessoas do sexo feminino, o sistema de alarme pode gerar a mesma reação de luta ou fuga, mas dependendo da situação (especialmente as de alto conteúdo emocional) também promove uma inundação do hormônio prolactina. A prolactina põe em funcionamento áreas do cérebro com o objetivo de apaziguar, acalmar os ânimos, colocar "panos quentes”.
Faz sentido. Durante milhares de anos os homens tiveram como principais funções caçar, guerrear e resolver problemas, enquanto as mulheres por milhares de anos tiveram o papel de guardiãs e cuidadoras das crianças. O resultado é que homens têm a tendência geral a reagir diante de dificuldades adotando uma atitude agressiva de "luta ou fuga”, enquanto as mulheres desenvolveram também as características de amparo e acolhida. O homem ancestral era o provedor, e a mulher ancestral, a protetora. Ficou a herança, ainda que descompassada com as necessidades atuais. ]
Acredito que, com a entrada das mulheres no universo de trabalho competitivo e agressivo, foi criada uma situação inusitada. Enquanto os homens já nascem com o sistema de alarme ajustado para situações francamente hostis, as mulheres já nascem com o sistema de alarme ajustado para situações de risco físico, e com o acréscimo da reação de amparo e acolhida especialmente em situações altamente emocionais.
Diante do universo competitivo do trabalho, muitas mulheres entram em conflito. Por um lado seu corpo sugere soluções contemporizadoras, por outro lado, o ambiente social exige soluções agressivas. Não há modelos prontos, esse fenômeno ocorre há no máximo duas gerações, não houve tempo suficiente para o cérebro se ajustar a essa nova situação. Claro que as mulheres estão conseguindo adaptar-se e superar essa situação, mas tudo tem um custo, e o preço dessa adaptação ao descompasso entre a formatação ancestral e as exigências sociais contemporâneas é um enorme desgaste emocional e a doença física.
De qualquer modo, tanto para as mulheres, que encontram esse problema em particular, quanto para os homens, a reação de emergência genérica é muitas vezes inapropriada, já que seus resultados são ineficazes, inadequados para as exigências contemporâneas, não conseguem
alterar o que lhes deu origem.
Já que você teve a paciência de ler tantos detalhes técnicos até agora, acrescento mais um. Uma boa parcela (não todas) das reações descritas acima foi durante muito tempo chamado genéricamente de estresse, mas atualmente os profissionais da área chamam de alostase.
Então, se você desejar ser chique e ultramoderno, não diga que está estressado, e sim que está sob sobrecarga alostática. Se servir de consolo, ao menos do ponto de vista técnico essa mudança não é mais um modismo, não é mais uma mudança de nome para um mesmo fenômeno.
Alostase vem do grego allo (que significa variável) e do também grego stasis (que significa literalmente "condição de estar em pé”), e foi criado para indicar duas realidades. A primeira delas é que, diante de situações difíceis nosso organismo busca respostas ótimas de modo dinâmico, variando segundo a necessidade. Esse conceito atual contraste como que você já pode ter lido sobre a reação de estresse que, acreditava-se erroneamente, tinha por objetivo manter o organismo estável, sem mudanças.
E alostase também indica que nosso corpo antecipa situações e se prepara para elas. Trocando em miúdos, basta você antever ou imaginar alguma coisa difícil no futuro, que seu corpo interpreta como ruim e também perigosa, e já se prepara para reagir de modo dinâmico e variável, mas com padrões formatados por necessidades ultrapassadas.
Pela última vez, bato na mesma tecla. Mesmo que a situação requeira outra estratégia, uma parte do seu corpo não sabe disso e reage com o que sempre deu certo em tempos ancestrais. O ser humano saiu do meio selvagem, mas o ambiente primitivo não saiu do ser humano.
Compreendendo o que acontece, podemos interferir. Os fundamentos dessa intervenção é o que veremos agora.